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A última canção dos amigos do Pinheirinho

Pedido feito em vida transformou despedida em um dos episódios mais comoventes já testemunhados pela comunidade de Ibirubá

22/05/2026 12:39 - Outros

Há histórias que parecem escritas pela própria sensibilidade da vida. No interior, onde amizades se constroem no compasso das lavouras, das conversas demoradas e dos silêncios do campo, a comunidade de Pinheirinho, em Ibirubá, viveu nesta quinta-feira um episódio que misturou dor, surpresa e uma profunda demonstração de afeto entre dois amigos de longa data.

Gentil Scapini, agricultor de 78 anos, faleceu na quarta-feira (20), no Hospital Annes Dias. Homem conhecido na região, deixou esposa, filhos, netos, bisneto e uma trajetória ligada à vida simples do campo. Entre os desejos deixados à família, havia um pedido carregado de significado: queria que, em sua despedida, o amigo João Sebastião Gularte Correa tocasse gaita em sua homenagem.

João, de 76 anos, aceitou a missão com o peso de quem compreendia perfeitamente o valor daquele gesto. Também agricultor e morador do Pinheirinho, ele compartilhava com Gentil muito mais do que a proximidade geográfica. Eram companheiros de uma amizade construída ao longo de anos, daquelas que dispensam explicações. Irmão do músico tradicionalista e nativista gaúcho Ernesto Nunes, de Ibirubá, João também mantinha ligação com a música, expressão que acabou marcando de forma definitiva seus últimos momentos.

Na manhã desta quinta-feira, durante os atos de despedida, João não estava sozinho. Ao seu lado, também participava da homenagem outro gaiteiro conhecido como Santa Maria, que o acompanhava naquele momento de despedida. Diante da família e dos amigos, João posicionou-se pela última vez com a gaita nas mãos. O ambiente já era de forte emoção. As notas ecoaram pela capela em um gesto carregado de simbolismo. Era a homenagem prometida. O último compromisso entre amigos.

Mas o que seria apenas um gesto de despedida tornou-se uma cena impossível de esquecer.

Ao iniciar a segunda música, João passou mal repentinamente. Caiu ali mesmo, ainda durante a homenagem, diante de familiares e amigos atônitos. Socorrido com urgência, foi encaminhado ao Hospital Annes Dias, mas não resistiu.

Segundo familiares, João era uma pessoa sensível, profundamente apegada ao amigo e bastante abalada pela despedida. Sua morte, ocorrida poucas horas após prestar a homenagem, ampliou a comoção em toda a comunidade rural.

O que começou como o adeus a Gentil transformou-se, de forma inesperada, em duas despedidas marcadas pela mesma dor e pelo mesmo destino. Em um detalhe que tornou a história ainda mais impactante para familiares e moradores, João passou a ser velado na mesma capela onde, horas antes, havia se despedido do amigo. A mesma câmara ardente que acolheu Gentil tornou-se, pouco depois, o espaço da despedida daquele que foi cumprir sua última promessa.

João deixa esposa, filhos, genro, noras, netos e demais familiares. Seu sepultamento também ocorre no Cemitério do Pinheirinho, o mesmo local que recebeu Gentil.

Para uma comunidade acostumada a dividir alegrias, dificuldades e memórias coletivas, a história dos dois agricultores ultrapassa a coincidência. Ficou a imagem da gaita interrompida no meio da canção — e a sensação de que algumas amizades simplesmente se recusam a terminar.

Rádio Cidade Ibirubá

Foto: reprodução

Fonte: Rádio Cidade Ibirubá Foto: reprodução

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