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<figure class="image"><img src="https://clicemfoco.com.br/admin/uploads/noticias/11ffa140ad4841cebc74871f3da4c5a2.jpg"></figure><p>Há histórias que parecem escritas pela própria sensibilidade da vida. No interior, onde amizades se constroem no compasso das lavouras, das conversas demoradas e dos silêncios do campo, a comunidade de Pinheirinho, em Ibirubá, viveu nesta quinta-feira um episódio que misturou dor, surpresa e uma profunda demonstração de afeto entre dois amigos de longa data.</p><p>Gentil Scapini, agricultor de 78 anos, faleceu na quarta-feira (20), no Hospital Annes Dias. Homem conhecido na região, deixou esposa, filhos, netos, bisneto e uma trajetória ligada à vida simples do campo. Entre os desejos deixados à família, havia um pedido carregado de significado: queria que, em sua despedida, o amigo João Sebastião Gularte Correa tocasse gaita em sua homenagem.</p><p>João, de 76 anos, aceitou a missão com o peso de quem compreendia perfeitamente o valor daquele gesto. Também agricultor e morador do Pinheirinho, ele compartilhava com Gentil muito mais do que a proximidade geográfica. Eram companheiros de uma amizade construída ao longo de anos, daquelas que dispensam explicações. Irmão do músico tradicionalista e nativista gaúcho Ernesto Nunes, de Ibirubá, João também mantinha ligação com a música, expressão que acabou marcando de forma definitiva seus últimos momentos.</p><p>Na manhã desta quinta-feira, durante os atos de despedida, João não estava sozinho. Ao seu lado, também participava da homenagem outro gaiteiro conhecido como Santa Maria, que o acompanhava naquele momento de despedida. Diante da família e dos amigos, João posicionou-se pela última vez com a gaita nas mãos. O ambiente já era de forte emoção. As notas ecoaram pela capela em um gesto carregado de simbolismo. Era a homenagem prometida. O último compromisso entre amigos.</p><p>Mas o que seria apenas um gesto de despedida tornou-se uma cena impossível de esquecer.</p><p>Ao iniciar a segunda música, João passou mal repentinamente. Caiu ali mesmo, ainda durante a homenagem, diante de familiares e amigos atônitos. Socorrido com urgência, foi encaminhado ao Hospital Annes Dias, mas não resistiu.</p><p>Segundo familiares, João era uma pessoa sensível, profundamente apegada ao amigo e bastante abalada pela despedida. Sua morte, ocorrida poucas horas após prestar a homenagem, ampliou a comoção em toda a comunidade rural.</p><p>O que começou como o adeus a Gentil transformou-se, de forma inesperada, em duas despedidas marcadas pela mesma dor e pelo mesmo destino. Em um detalhe que tornou a história ainda mais impactante para familiares e moradores, João passou a ser velado na mesma capela onde, horas antes, havia se despedido do amigo. A mesma câmara ardente que acolheu Gentil tornou-se, pouco depois, o espaço da despedida daquele que foi cumprir sua última promessa.</p><p>João deixa esposa, filhos, genro, noras, netos e demais familiares. Seu sepultamento também ocorre no Cemitério do Pinheirinho, o mesmo local que recebeu Gentil.</p><p>Para uma comunidade acostumada a dividir alegrias, dificuldades e memórias coletivas, a história dos dois agricultores ultrapassa a coincidência. Ficou a imagem da gaita interrompida no meio da canção — e a sensação de que algumas amizades simplesmente se recusam a terminar.</p><p>Rádio Cidade Ibirubá</p><p>Foto: reprodução</p>
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